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CURVAS DO RIO

R.Colini

CURVAS DO RIO

Uma menina de nove anos se depara com a partida do pai.

Uma menina de nove anos não pode entender as coisas derradeiras. Ela retém para toda a vida a imagem que jamais desvanecerá: aquela do homem que partiu. É cedo, para ela, compreender que o pai foi obrigado a consumar a renúncia que não desejava. Eu ainda vejo o vulto de papai se distanciando, contrariado e pequeno, cada vez menor, vergado sob o peso dos vencidos que baixam os olhos ante as ruínas de uma guerra perdida..”
“Eu era a aluna mais velha. Ia fazer dez anos enquanto as outras crianças tinham seis ou sete. Mesmo elas tendo tão pouca idade, me olhavam de uma forma que eu não compreendi, quando a professora perguntou o nome e de onde uma vinha. Não era a cidade de origem que ela queria saber, e sim o jardim de infância ou a pré-escola, para ter noção sobre o nível de conhecimento dos alunos.”
“Porém, com elas, que passaram juntas a puberdade e adolescência, aconteceu algo que não vivenciei: o desenvolvimento de amizades tensas e profundas, acompanhadas por intimidade, entrega e confissões, entre gargalhadas de gralha sem controle: tudo era motivo de piada, especialmente o sexo.”
“...lia alucinadamente, descobria aquilo que era velado, me encantava com os ensinamentos dos professores que torciam por nós, que davam seu melhor, mas que, no fundo, sabiam que estávamos condenados pela estreiteza da periferia, onde raramente um aluno ingressava no curso superior.”
“Era um sobrado onde havia consultórios de clínica geral, que disfarçava o que acontecia ali. Caio me acompanhou até a entrada da sala, e lá dentro me receberam o médico, o anestesista e a enfermeira. Senti pena das amigas e lembrei-me dos lugares aonde as tinha acompanhado. Então, pediram para eu contar até dez e a partir do cinco eu não vi mais nada.”
 “Os anos faziam aumentar a distância de papai. Nas raras ocasiões em que eu conseguia tempo, eu o procurava, porém agora com método. Sabia que, se insistisse nas buscas nômades que eu fizera desde os dezesseis anos, não conseguiria qualquer resultado. Passei a procurar por ele nos registros de sindicatos, associações de migrantes e nas construtoras que ergueram prédios próximos à pensão onde ele morou. Algumas informações que reuni começavam a me dar alguma esperança, e então ampliei a busca para os órgãos públicos de saúde e judiciário.”
“Bem ao fundo do pátio, dois homens conversavam, um sentado em um banco de jardim e outro apoiado em uma árvore. A funcionária avisou que aquele que eu procurava era o que estava de pé. O rosto do homem nada me dizia. Se eu cruzasse pela rua não daria atenção. Seus olhos em nada lembrava os olhos que, afinal, eu também mal conseguia lembrar em minhas fantasias.”
“Acontecia comigo o contrário daquilo que geralmente ocorria diante do abandono. O inverso das mulheres que enfrentara o sofrimento, a desilusão, a renúncia e a solidão, para então se libertarem. Porque, se antes eu era livre, agora eu me aprisionava e afundava como se precisasse disso. Eu era cética demais, desconfiada demais, autossuficiente demais para procurar ajuda nos amigos ou amparo profissional.”

 

Uma menina de nove anos se depara com a partida do pai.

Ele vai embora não porque deseja, mas porque a seca o obrigou. Esgotados os últimos recursos, só resta a ele partir em busca de emprego, e promete que retornará para a mulher e filha. Nos primeiros meses envia pelo correio notícias e algum dinheiro, até que as cartas deixam de chegar. Meses se passam e o mistério sobre sua ausência se aprofunda.

A mãe decide sair em busca do marido. Não conseguem encontrá-lo, e deverão, sozinhas, reconstruir suas vidas na cidade. Para sempre ficará na memória a imagem que a menina reteve do vulto do pai, se afastando sob o sol até que se transformasse em um ponto indefinido no horizonte. A menina crescerá, mas não desistirá da busca pelo pai.

A adaptação de mãe e filha na cidade, as primeiras impressões na casinha de fundos e a primeira escola – onde a menina é mais velha que seus colegas de sala –, principiam uma sucessão de eventos que levarão a uma decisão que mudará a vida da menina.

Ela nega as profecias autorrealizáveis de suas origens e alcança uma posição de sucesso. Torna-se mãe, mas nem assim desiste pela procura do pai desaparecido, acumulando por anos pesquisas nos arquivos do judiciário, delegacias, hospitais e sindicatos.

Revolução sexual, aborto, opções políticas e os sonhos de sua geração confrontam-se com os homens que entrarão e sairão de sua vida.

Atravessa os anos 80 da inflação e da AIDS, e nessa época um acontecimento quase a destrói e põe em xeque a sua independência e liberdade.

Quando chega o novo milênio, terá que encarar suas contradições de mãe a respeito das escolhas da filha, que não são exatamente o que desejava.